O porquê de Oscar Niemeyer

Niemeyer

Croqui Catedral de Brasília

Niemeyer foi meu ídolo. Queria uma palavra melhor para descrever o que sinto por ele, porque não o idolatro, mas o tenho como referência. Gosto tanto que as pessoas sempre me presenteiam com livros sobre ele – e continuem a me presentear, imagino quanta coisa boa vai ser publicado agora, depois do seu falecimento.

O meu sonho secreto era conhecê-lo. Ele já tinha quase 105 anos que seriam completados no próximo dia 15 de dezembro, estava com a saúde debilitada apesar de completamente lúcido. E essa lucidez é o que importava, pois assim nós ainda tínhamos a opinião do Oscar sobre o que estava sendo feito hoje. Não importa se ele acabasse mandando tudo à merda. Aliás, opinião não apenas no campo da arquitetura, mas também nas áreas política e do social. Ele era um daqueles senhores sábios que guardam segredo.

E se morresse o seu “ídolo”, ele seria velado no Congresso Nacional? Será que apenas dessa informação dá entender a importância histórica de Niemeyer?

Niemeyer se formou tarde para os dias de hoje, com 27 anos. Aliás, o que pra mim é o ideal – agora, frequentando as aulas do mestrado, eu sei que é nessa idade que a gente assimila melhor as coisas da vida. Ele tinha 30 anos na época da sua primeira obra com repercussão. Era o edifício Obra do Berço, em 1937. Quase ao mesmo tempo em que era colaborador na obra do Palácio de Capanema, o atual edifício do Ministério da Educação no Rio de Janeiro. Durante o projeto, o colaborador despontou – criou o partido do edifício! Só um chefe como Lucio Costa para fazer seu arquiteto ir resgatar o croqui do partido amassado e jogado pela janela. O suíço Le Corbusier ficou enciumado. Também, pudera! Aquele edifício no Rio de Janeiro seria o primeiro alto e moderno no mundo, com vidraças em toda a fachada. Nem Nova Iorque tinha edifícios como aquele!

Havia poucos arquitetos naquela época e todos eram conhecidos, faziam projetos em conjunto – revezavam as equipes. Por isso que você sempre vê aquelas fotos com um cara mais ilustre que o outro, todos juntos. Bem diferente de hoje. Lembro-me do meu pai na minha formatura olhando aqueles quase 200 formandos e perguntando para mim se tudo aquilo de aluno que se formava todo o semestre – ok, não é uma coisa doce de se ouvir, mas ele estava preocupado com o meu futuro.

Depois do Ministério, só apareceram grandes oportunidades para Niemeyer. Veio a Pampulha, em Minas Gerais, e a amizade com o futuro presidente Juscelino Kubistchek. Oscar fez obras pelo Rio e várias outras até chegar à Brasília. Porém, na época, Brasília só poderia nascer por um único meio: um concurso público. Quem ganhou o concurso foi Lucio Costa que planejou a cidade do futuro. Como uma máquina, Brasília seria eficaz e perfeita, exemplo para o mundo todo. O desenho similar do avião trazia a ideia do futurismo que estava por vir e que, infelizmente, ainda está…

Croqui Palácio da Alvorada

Croqui Palácio da Alvorada

Niemeyer desenhou os principais prédios de Brasília – suas implantações e suas formas. Incríveis esculturas que abrigam o homem e aguçam até hoje todos os sentidos de quem ali entra. Eram desenhos que ninguém nunca tinha feito, como os pilares dos palácios e do congresso. Ele associava coisas muito diferentes e que, surpreendentemente, essa associação apresentava uma grande harmonia e equilíbrio de todas aquelas forças e tensões em estruturas monumentais.

Depois de Brasília, Oscar se tornou o arquiteto brasileiro com maior repercussão no mundo. E sempre o será de grande importância para o movimento moderno e para as discussões sobre igualdade social, arte e idealismo. Por isso, ele foi velado no Congresso Nacional.

Oscar ensinou o brasileiro o que é arquitetura – se você conhece casas com aquela rampa curva na entrada, pode apostar que é influência dele – entre tantas outras coisas. Ensinou o brasileiro que praça é seca para poder reunir – pare de reclamar do memorial da América Latina e reúna-se, reivindique! Elevou a arquitetura como patrimônio do povo brasileiro. Foi feito para nós tudo aquilo que ele projetou, pensando em nós!  Arquiteto não tem jeito, quer mudar o mundo, deixá-lo mais belo, mais justo, digno para todos.

A vida é um sopro, Niemeyer? Logo você que teve uma vida tão longa diz isso? Queria fazer mais? Quando me lembro dessa frase sinto no peito a saudades e o quanto é bom (e nunca é o suficiente) ficar contemplando a baía de Guanabara pelas vidraças do Museu de Niterói. Nunca quis sair de lá.

Apesar da sensibilidade do Oscar para as igrejas e criar espaços transcendentais como a Capela da Pampulha e a Catedral de Brasília, ele era ateu. Imagina um cara, que construiu Brasília e teve esperanças de um país melhor, ver como tudo foi interrompido por um governo repressivo e ditador, ver uma educação que caiu e não consegue formar uma criança com o mínimo de instrumentos para executar um oficio ou uma carreira? Como Oscar disse: fodido não tem vez. Nessas horas eu compreendo os ateus, mas como tenho paciência, mantenho a minha fé.

Acho que agora podemos entender a perda desse homem. Perdemos um dos maiores gênios do século XX que ainda estava entre nós. É bom alguém para contar o quanto é possível viver o melhor, Oscar viveu uma “belle époque” brasileira. Oscar era e é o nosso representante, sinto como se tivesse perdido a segurança e a referência de arquitetura do Brasil. Há poucos anos atrás, Oscar propos mais um prédio para o Planalto Central. Bastante ousado, pois Brasília é tombada pelo patrimônio histórico e não pode sofrer grandes mudanças. Com isso, Oscar trouxe discussões sobre o assunto – levantou a poeira dos discursos arquitetônicos e, mais, levou esses discursos tão restritos às universidades para a boca do povo!

Mas não estamos órfãos! O Brasil produziu muito no campo da arquitetura e temos dois arquitetos brasileiros que ganharam o maior prêmio de arquitetura no mundo, o Pritzker – que premia a obra completa do arquiteto pela sua importância e presença no mundo. E brasileiros, temos dois Pritzker! Os arquitetos brasileiros que ganharam o Pritzker foram Oscar Niemeyer e Paulo Mendes da Rocha que, provavelmente hoje, se tornou o nosso arquiteto mais importante vivo. Por isso, eu acho que nossas atenções de arquitetos voltam-se agora para o ‘Paulinho’, como ele é chamado pelos colegas arquitetos.

Vamos despontar com a nossa criatividade e para isso: estudar muito, ter a melhor formação possível. Levar a figura do Oscar no nosso coração e procurar ter uma vida tão longa quanto a dele. E, arquitetos, não vamos deixar a nossa esperança morrer porque arquitetura é para sempre!

Homenagem IAB-SP a Niemeyer

Homenagem IAB-SP a Niemeyer

3 Respostas para “O porquê de Oscar Niemeyer

  1. Angela, perfeito! Voce não só é uma arquiteta mas tem a sensibilidade de uma escritora também! Parabéns, esse texto mereceria estar num jornal!

  2. Angela, que lindo seu texto! Diz muito a todos, não somente aos arquitetos, que realmente devem estar sentindo muito a morte do Niemeyer… Sábio como poucos, gênio como quase nenhum.

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