Casinha de bonecas

Eu ainda estava na faculdade quando ouvi uma professora se referir às casas projetadas atualmente como “casinhas de bonecas”. Isto chamou bastante a minha atenção, tanto que ainda me lembro. Estávamos conversando com mais um professor, exaltando os acabamentos usados há cerca de 30 anos. Mais especificadamente, falávamos das portas dos elevadores antigos dos edifícios do bairro Higienópolis, em São Paulo, feitas de madeiras de lei.

As portas de madeira de lei apresentam incríveis desenhos formados pelos veios da madeira e por vários tons de cores. Para fechar (literalmente), as portas geralmente têm puxadores e visores metálicos sofisticados. Nessa viagem de arquitetos sobre uma simples porta, nós imaginávamos como seria bom se os prédios as preservassem. Afinal, não se pode mais produzir portas como essas – pelo menos não em série, acredito que não há reflorestamento que suporte o volume de solicitações da indústria. Não é por acaso que móveis de madeira de lei são tão caros – aliás, por favor, certifique-se da origem da madeira ao comprar mobiliário, pisos ou portas.

Enquanto eu comparava os acabamentos das portas dos elevadores de Higienópolis com os móveis que projetava no escritório de arquitetura, minha professora disse: “As casas de agora são como ‘casinhas de bonecas’, tudo é de mentirinha”. “Os materiais não falam mais por si, ou seja, não são mais o que parecem”, eu completei. Em seguida, ela disse outra coisa a que me ative: “Ah! Hoje, o discurso é diferente”. Por quê?

Quando a professora falou que o discurso é diferente, comparava um discurso sobre a linguagem da matéria dos anos 1950 e 1960 (auge do modernismo) aos atuais. Hoje, os acabamentos de marcenarias e até os cerâmicos “imitam” outros mais nobres. Por exemplo, a estrutura de um móvel pode ser MDF e o revestimento dele, lâminas de madeira ou laminados que “imitam” a madeira. Quando se requer um ambiente mais aconchegante, geralmente, recorremos aos amadeirados. O que vale, atualmente, são as sensações que o ambiente proporciona. Tudo é, digamos, psicológico. E há vários outros recursos para se recorrer às diversas sensações que se quer (ou requer).

Acredito que essa é uma resposta à desproporção entre a procura no mercado e os recursos que temos. Devemos aproveitar os inúmeros materiais e acabamentos para escolher, projetar e decorar nossas casas, claro não perdendo a oportunidade de conservar ou reaproveitar o que é muito difícil de adquirir. Uma porta pode virar um tampo de mesa ou um tablado, por exemplo. Com muita criatividade chegaremos ao ideal: reduzir, reutilizar e reciclar.

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